Diocese de Cajazeiras

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Entrevista com Padre Hernaldo Pinto Farias

A liturgia não vai avançar se os nossos leigos e clero não forem formados.

 

PASCOM: Qual a importância da realização do Nordestão de Liturgia?

Padre Hernaldo Pinto Farias: O Concílio Vaticano II determinou que toda a Igreja depois do próprio Concílio, com a reforma deveria passar por um processo de formação. A reforma Litúrgica só poderá acontecer se toda a Igreja: leigos, clero, religiosos (as) passarem por esse processo formativo. A formação litúrgica das pessoas que trabalham no Nordeste, dos nordestinos em específico neste caminho das três etapas do Nordestão é uma formação que esta dentro, portanto deste desejo da Igreja, quanto mais pessoas conhecerem a liturgia, melhor nossas liturgias serão. É importante que todos se esforcem para isto. Daí o Nordestão ser o espaço para uma liturgia melhorada cada vez mais para o Norte e Nordeste do país. Isto por tantos motivos, por este sentido primário da formação no campo litúrgico e segundo porque sabemos as mais diversas dificuldades, dentre elas a financeira. Deslocar-se para lugares como São Paulo, ficaria muito mais difícil para os nordestinos. Ter um curso aqui além de ser uma oportunidade mais viável as pessoas é também uma oportunidade de estarmos não apenas estudando a liturgia como tal, mas também de estar vendo uma liturgia a partir das necessidades próprias das comunidades do Nordeste.

PASCOM: Como a CNBB planeja celebrar os 50 anos do Documento do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, a Sacrossanctum Concilium?

Padre Hernaldo Pinto Farias: O Documento Conciliar sobre a Sagrada Liturgia vai completar no dia 04 de dezembro de 2013, no próximo ano, 50 anos de promulgação. Foi o primeiro documento a ser promulgado no Concílio Vaticano II, e por ter sido o primeiro teve uma importância muito grande porque repensou não só a liturgia da Igreja, mas a própria existência da Igreja a partir da liturgia. Tanto que a Sacrossanctum Concilium teve influência nos demais Documentos Conciliares. A CNBB está tendo dois blocos de comemorações. O primeiro promovido pela Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia está dividido em três anos. O ano passado nos dedicamos a rever documentos, textos e livros para conseguirmos publicar até o final desde ano. Um deles que já está sendo revisado é a Sacrossanctum Concilium em versão popular, em linguagem simples, para que todos tenham acesso, será a segunda edição revisada, já que foi publicado por ocasião dos 40 anos. Uma segunda etapa vai acontecer agora, de 31 de janeiro a 04 de fevereiro em Itaicí, um grande Seminário Nacional. Este seminário está sendo destinado aos bispos, em especial os referenciais de liturgia dos regionais, aos professores de liturgia dos institutos, faculdades e seminários de teologia, aos professores de teologia também dessas faculdades, sobretudo teologia dogmática, aos coordenadores de liturgia dos regionais e das dioceses e pessoas que lidam diretamente na condução da liturgia no Brasil, na CNBB como um todo. O Seminário Nacional está com a previsão de ter mais ou menos 150 participantes, representes de quase todo o Brasil.

O Seminário vai contar com a assessoria de professores renomados do Brasil e um assessor internacional, o professor André Grilo que é doutor em liturgia e que vai nos ajudar a fazer um caminho de reflexão sobre a liturgia a partir do Concílio Vaticano II, ou seja, a partir da própria Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia, além de outros que nos ajudarão a refletir este conteúdo contido nos documentos do Episcopado Latino-Americano.

Será uma oportunidade para um bom debate (porque essa é a proposta do seminário; não vai ser um curso, vai ser um debate) e depois com esse material incluindo todas as conferências, textos produzidos pelos participantes etc., será feita uma publicação pela CNBB.

Em 2013 iremos envolver todos os regionais do Brasil da CNBB para repassar todo esse conteúdo, tanto o do seminário quanto o que esta sendo preparado pela CNBB para publicação, objetivando a chegada dessas informações a todas as dioceses. Assim estamos querendo comemorar os 50 anos.

Dentro disso, tem uma comemoração maior que a Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia está inserida que é a comemoração programada pela própria CNBB. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil montou uma comissão de bispos e assessores que estão preparando formas comemorativas dos 50 anos do Concílio Vaticano II. Uma das realizações desta grande comemoração  será durante a próxima Assembleia Geral da CNBB em Aparecida, quando no encerramento teremos uma Celebração Eucarística comemorando os 50 anos do Concílio Vaticano II.


PASCOM: De que maneira podemos desenvolver em nossas dioceses uma liturgia inculturada assim como orienta a Sacrossanctum Concilium?

Padre Hernaldo Pinto Farias: Em primeiro lugar a formação. Não se pode entrar ou intervir no rito sem o conhecimento do rito. Seria uma arbitrariedade. Então é importante a formação. E para o processo de inculturação quanto mais pessoas estudarem e compreenderem a liturgia, mais pessoas terão contribuído neste caminho. A inculturação não se dá de cima para baixo; ela se dá, a partir da realidade litúrgica do povo para que a Igreja perceba que esta realidade tem consistência na Tradição, na Palavra de Deus, no ensinamento do Magistério, na própria liturgia, e assim a Igreja assuma. Mas para ir assumindo, é importante que as pessoas sejam formadas. Daí a importância do Nordestão de Liturgia no Nordeste, aqui no Crato.


PASCOM: Quais as mudanças mais significativas no campo da liturgia da Igreja no Brasil no decorrer dos 50 anos de reforma litúrgica?

Padre Hernaldo Pinto Farias: A primeira é a boa qualidade das traduções dos livros litúrgicos que temos. Sempre foi uma preocupação da CNBB, desde os anos 60, termos traduções dos livros litúrgicos com uma linguagem que pudesse ser o mais fiel possível aos textos latinos, mas com uma linguagem compreensível ao povo, caso contrário o povo não poderia participar bem da liturgia, já que a finalidade última da própria constituição que ela proclama é a participação ativa, consciente e frutuosa do povo na liturgia. Outro fruto que a reforma litúrgica no Brasil, ou melhor, que o Concílio Vaticano II deixou no Brasil é a seguinte: os bispos que foram a Roma para o Concílio Vaticano II, compreendendo o espírito da Constituição Conciliar, investiu desde os anos 60 na formação litúrgica no País. E isso mudou a face da liturgia no Brasil, visto que muitas pessoas passaram por cursos promovidos pela CNBB Nacional e/ou pelos Regionais e isso foi dando fôlego, força e ânimo às nossas comunidades, sobretudo na preocupação de bem preparar e bem conduzir as celebrações. ‘Então esse foi um grande ganho’. Decorrente também do Concílio, foi à preocupação da CNBB de montar, desde o nível nacional, regional e diocesano, comissões de liturgia. O Brasil é um dos poucos países, uma das poucas Conferências Episcopais que possuem assessoria para a pastoral litúrgica, para a música ritual e para o espaço litúrgico. A maioria das Conferências Episcopais tem um assessor para tudo. A nossa tem um para cada especificidade também formado na área: um músico que está conduzindo o caminho da música ritual; um arquiteto que trabalha no setor do espaço litúrgico; e um especialista em liturgia que conduz a assessoria da pastoral litúrgica; tudo isso com uma equipe que é a Comissão Episcopal formada por três bispos. Cada assessor de cada um dos três setores conta com uma equipe de reflexão de especialistas, em média 10 a 12 cada um, naquela área. Isso dá um peso para o nosso trabalho no Brasil. Ora, por decorrência, nós temos nos regionais comissões de liturgia que ajudam a animar os regionais, umas mais animadas e outras menos, porém isso cada vez mais está se aperfeiçoando no país. Este foi outro ganho que tivemos neste período.

PASCOM: A Diocese de Cajazeiras dedicou o ano de 2012 ao Ministério da Liturgia e a temática da Iniciação Cristã. Que orientações a Comissão Episcopal Pastoral para Liturgia da CNBB daria à nossa diocese?

Padre Hernaldo Pinto Farias: Eu penso que uma primeira seria investir cada vez mais na formação, seja lá na própria diocese seja aqui no Nordestão. Quem sabe até mesmo trazer mais pessoas capacitadas para serem formadas aqui e repercutir tudo isso na própria diocese com processos formativos. A liturgia, volto a afirmar, não vai avançar se os nossos leigos e clero não forem formados. Outra sugestão que eu daria seria investir cada vez mais na base, ou seja, formar e capacitar equipes de liturgia em cada paróquia, quem sabe ficar como um projeto do ano. Com isso cada paróquia terá montado, ao fim do ano, sua própria pastoral litúrgica, sendo estas coordenadas por uma equipe diocesana, marcando já durante o ano um calendário de formações, retiros para leitores, cantores, animadores e demais ministérios que compõem a equipe. A liturgia só será garantida com pessoas bem preparadas para assim conduzirem as nossas celebrações. Penso que estas sugestões poderão ajudar muito. Não querer ‘grandes coisas’ é por aí que podemos começar, com boas equipes de liturgia.

 

Padre Hernaldo Pinto Farias é assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia.

 

Entrevista realizada no Nordestão de Liturgia pelo Articulador do Zonal de São João do Rio do Peixe - Fransuélio Félix do Nascimento; Diácono Sérgio e Gertrudes representantes da Diocese no Nordestão de Liturgia.

 

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