Diocese de Cajazeiras

Artigos do Papa

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Mensagem do Papa - 46º Dia Mundial das Comunicações Social

Silêncio e palavra: caminho de evangelização

Terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Amados irmãos e irmãs,

Ao aproximar-se o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2012, desejo partilhar convosco algumas reflexões sobre um aspecto do processo humano da comunicação que, apesar de ser muito importante, às vezes fica esquecido, sendo hoje particularmente necessário lembrá-lo. Trata-se da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado.

O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos. Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada confrontação, às nossas palavras e ideias. Deste modo abre-se um espaço de escuta recíproca e torna-se possível uma relação humana mais plena. É no silêncio, por exemplo, que se identificam os momentos mais autênticos da comunicação entre aqueles que se amam: o gesto, a expressão do rosto, o corpo enquanto sinais que manifestam a pessoa. No silêncio, falam a alegria, as preocupações, o sofrimento, que encontram, precisamente nele, uma forma particularmente intensa de expressão. Por isso, do silêncio, deriva uma comunicação ainda mais exigente, que faz apelo à sensibilidade e àquela capacidade de escuta que frequentemente revela a medida e a natureza dos laços. Quando as mensagens e a informação são abundantes, torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório. Uma reflexão profunda ajuda-nos a descobrir a relação existente entre acontecimentos que, à primeira vista, pareciam não ter ligação entre si, a avaliar e analisar as mensagens; e isto faz com que se possam compartilhar opiniões ponderadas e pertinentes, gerando um conhecimento comum autêntico. Por isso é necessário criar um ambiente propício, quase uma espécie de «ecossistema» capaz de equilibrar silêncio, palavra, imagens e sons.

Grande parte da dinâmica atual da comunicação é feita por perguntas à procura de respostas. Os motores de pesquisa e as redes sociais são o ponto de partida da comunicação para muitas pessoas, que procuram conselhos, sugestões, informações, respostas. Nos nossos dias, a Rede vai-se tornando cada vez mais o lugar das perguntas e das respostas; mas, o homem de hoje vê-se, frequentemente, bombardeado por respostas a questões que nunca se pôs e a necessidades que não sente. O silêncio é precioso para favorecer o necessário discernimento entre os inúmeros estímulos e as muitas respostas que recebemos, justamente para identificar e focalizar as perguntas verdadeiramente importantes. Entretanto, neste mundo complexo e diversificado da comunicação, aflora a preocupação de muitos pelas questões últimas da existência humana: Quem sou eu? Que posso saber? Que devo fazer? Que posso esperar? É importante acolher as pessoas que se põem estas questões, criando a possibilidade de um diálogo profundo, feito não só de palavra e confrontação, mas também de convite à reflexão e ao silêncio, que às vezes pode ser mais eloquente do que uma resposta apressada, permitindo a quem se interroga descer até ao mais fundo de si mesmo e abrir-se para aquele caminho de resposta que Deus inscreveu no coração do homem.

No fundo, este fluxo incessante de perguntas manifesta a inquietação do ser humano, sempre à procura de verdades, pequenas ou grandes, que dêem sentido e esperança à existência. O homem não se pode contentar com uma simples e tolerante troca de cépticas opiniões e experiências de vida: todos somos perscrutadores da verdade e compartilhamos este profundo anseio, sobretudo neste nosso tempo em que, «quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais» (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011).

Devemos olhar com interesse para as várias formas de sites, aplicações e redes sociais que possam ajudar o homem atual não só a viver momentos de reflexão e de busca verdadeira, mas também a encontrar espaços de silêncio, ocasiões de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Na sua essencialidade, breves mensagens – muitas vezes limitadas a um só versículo bíblico – podem exprimir pensamentos profundos, se cada um não descuidar o cultivo da sua própria interioridade. Não há que surpreender-se se, nas diversas tradições religiosas, a solidão e o silêncio constituem espaços privilegiados para ajudar as pessoas a encontrar-se a si mesmas e àquela Verdade que dá sentido a todas as coisas. O Deus da revelação bíblica fala também sem palavras: «Como mostra a cruz de Cristo, Deus fala também por meio do seu silêncio. O silêncio de Deus, a experiência da distância do Onipotente e Pai é etapa decisiva no caminho terreno do Filho de Deus, Palavra Encarnada. (...) O silêncio de Deus prolonga as suas palavras anteriores. Nestes momentos obscuros, Ele fala no mistério do seu silêncio» (Exort.  ap. pós-sinodal Verbum Domini, 30 de Setembro de 2010, n. 21). No silêncio da Cruz, fala a eloquência do amor de Deus vivido até ao dom supremo. Depois da morte de Cristo, a terra permanece em silêncio e, no Sábado Santo – quando «o Rei dorme (…), e Deus adormeceu segundo a carne e despertou os que dormiam há séculos» (cfr Ofício de Leitura, de Sábado Santo) –, ressoa a voz de Deus cheia de amor pela humanidade.

Se Deus fala ao homem mesmo no silêncio, também o homem descobre no silêncio a possibilidade de falar com Deus e de Deus. «Temos necessidade daquele silêncio que se torna contemplação, que nos faz entrar no silêncio de Deus e assim chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora» (Homilia durante a Concelebração Eucarística com os Membros da Comissão Teológica Internacional, 6 de Outubro de 2006). Quando falamos da grandeza de Deus, a nossa linguagem revela-se sempre inadequada e, deste modo, abre-se o espaço da contemplação silenciosa. Desta contemplação nasce, em toda a sua força interior, a urgência da missão, a necessidade imperiosa de «anunciar o que vimos e ouvimos», a fim de que todos estejam em comunhão com Deus (cf. 1 Jo 1, 3). A contemplação silenciosa faz-nos mergulhar na fonte do Amor, que nos guia ao encontro do nosso próximo, para sentirmos o seu sofrimento e lhe oferecermos a luz de Cristo, a sua Mensagem de vida, o seu dom de amor total que salva.

Depois, na contemplação silenciosa, surge ainda mais forte aquela Palavra eterna pela qual o mundo foi feito, e identifica-se aquele desígnio de salvação que Deus realiza, por palavras e gestos, em toda a história da humanidade. Como recorda o Concílio Vaticano II, a Revelação divina realiza-se por meio de «ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal modo que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido» (Const. dogm. Dei Verbum, 2). E tal desígnio de salvação culmina na pessoa de Jesus de Nazaré, mediador e plenitude da toda a Revelação. Foi Ele que nos deu a conhecer o verdadeiro Rosto de Deus Pai e, com a sua Cruz e Ressurreição, nos fez passar da escravidão do pecado e da morte para a liberdade dos filhos de Deus. A questão fundamental sobre o sentido do homem encontra a resposta capaz de pacificar a inquietação do coração humano no Mistério de Cristo. É deste Mistério que nasce a missão da Igreja, e é este Mistério que impele os cristãos a tornarem-se anunciadores de esperança e salvação, testemunhas daquele amor que promove a dignidade do homem e constrói a justiça e a paz.

Palavra e silêncio. Educar-se em comunicação quer dizer aprender a escutar, a contemplar, para além de falar; e isto é particularmente importante paras os agentes da evangelização: silêncio e palavra são ambos elementos essenciais e integrantes da ação comunicativa da Igreja para um renovado anúncio de Jesus Cristo no mundo contemporâneo. A Maria, cujo silêncio «escuta e faz florescer a Palavra» (Oração pela Ágora dos Jovens Italianos em Loreto, 1-2 de Setembro de 2007), confio toda a obra de evangelização que a Igreja realiza através dos meios de comunicação social.

Última atualização em Sáb, 19 de Maio de 2012 17:55
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Regina Coeli de Bento XVI

Regina Coeli
Praça de São Pedro
Domingo, 29 de abril de 2012

Queridos irmãos e irmãs!

Foi concluída há pouco, na Basílica de São Pedro, a Celebração Eucarística na qual ordenei nove presbíteros da Diocese de Roma. Demos graças a Deus por este dom, sinal de Seu amor fiel e providencial para a Igreja! Reunamo-nos espiritualmente em torno desses novos sacerdotes e oremos para que acolham plenamente a graça deste Sacramento a ser cumprido conforme Jesus Cristo Sacerdote e Pastor.

E oremos para que todos os jovens sejam atentos à voz de Deus que interiormente fala em seus corações e os chamam a desligar-se de tudo e servir Ele. Para este efeito, é dedicada a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. De fato, o Senhor chama sempre, mas tantas vezes nós não escutamos. Estamos distraídos com tantas coisas, às vezes vozes mais superficiais; e depois temos medo de escutar a voz do Senhor, porque pensamos que pode tirar nossa liberdade.

Em realidade, cada um de nós é fruto do amor: certamente, o amor dos pais, mas, mais profundamente, o amor de Deus. Diz a Bíblia: mesmo que tua mãe não te quisesse, eu te quero, porque te conheço e te amo (cfr Is 49,15). No momento em que me dou conta disso, a minha vida muda: torna-se uma resposta a esse amor, maior que qualquer outro, e assim se realiza plenamente minha liberdade.

Os jovens que hoje consagrei sacerdotes não são diferentes dos outros jovens, mas foram tocados profundamente pela beleza do amor de Deus, e não puderam fazer outra coisa se não responder com toda vida. Como encontraram o amor de Deus? Encontraram-no em Jesus Cristo: no Seu Evangelho, na Eucaristia e na comunhão da Igreja.

Na Igreja descobrimos que a vida de cada homem é uma história de amor. Vemos isso claramente na Sagrada Escritura e nos confirmam os testemunhos dos santos. Exemplar é a expressão de Santo Agostinho, que na sua Confissão se volta a Deus e diz: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo... Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez” (X, 27.38).

Queridos amigos, oremos pela Igreja, por cada comunidade local, para que seja como um jardim irrigado no qual possam germinar e amadurecer todas as sementes de vocação que Deus espalha em abundância. Oremos para que em todo lado seja cultivado este jardim, na alegria de sentirem-se todos chamados, na variedade dos dons.

Em particular, as famílias são o primeiro ambiente no qual se “respira” o amor de Deus, que dá a força interior também em meio às dificuldades e as provações da vida. Quem vive em família a experiência do amor de Deus, recebe um dom inestimável, que dá fruto em seu tempo. Vemos tudo isso na Beata Virgem Maria, modelo de acolhimento livre e obediente ao chamado divino, Mãe de cada vocação da Igreja.

 

Última atualização em Seg, 30 de Abril de 2012 17:00
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Homilia de Bento XVI - 4º Domingo de Páscoa

Homilia
Santa Missa do 4ª Domingo de Páscoa
Basílica de São Pedro
Domingo, 29 de abril de 2012


Venerados irmãos,

Queridos ordenados,

Queridos irmãos e irmãs!


A tradição romana de celebrar as Ordenações sacerdotais neste 4º Domingo de Páscoa, o domingo “do Bom Pastor”, contém uma grande riqueza de significado, ligada à convergência entre a Palavra de Deus, o Rito Litúrgico e o Tempo pascal no qual se coloca. Em particular, a figura do pastor, assim relevante na Sagrada Escritura e naturalmente muito importante para a definição do sacerdote, adquire sua plena verdade e clareza sobre o vulto de Cristo, na luz do Mistério de sua morte e ressurreição. Desta riqueza também vocês, queridos ordenados, podem sempre recorrer, todos os dias de suas vidas, e assim o sacerdócio de vocês será continuamente renovado.

Este ano, o lema evangélico é aquele central do capítulo 10 de João e inicia justamente com a afirmação de Jesus: “Eu sou o bom pastor”, na qual aparece logo a primeira característica fundamental: “O bom pastor dá a própria vida pelas ovelhas” (Jo 10,11). Vejam: aqui nós somos imediatamente conduzidos ao centro, ao clímax da revelação de Deus como pastor de seu povo. Este centro e clímax é Jesus, precisamente Jesus que morre sobre a cruz e deixa o sepulcro no terceiro dia, ressurge com toda sua humanidade e, deste modo, nos envolve, cada homem, na sua passagem da morte para a vida. Este evento – a Páscoa de Cristo – no qual se realiza plenamente e definitivamente a obra pastoral de Deus é um evento sacrifical: Assim, o Bom Pastor e Sumo Sacerdote coincidem na pessoa de Jesus que deu sua vida por nós.

Mas observemos brevemente também as primeiras duas Leituras e o Salmo Responsorial (Sal 118). A passagem dos Atos dos Apóstolos (4,8-12) nos apresenta o testemunho de São Pedro diante dos chefes dos povos e dos anciãos de Jerusalém, depois da cura prodigiosa do coxo. Pedro afirma com grande franqueza que “Jesus é a pedra, que foi rejeitada por vós, construtores, e que se tornou a pedra angular”; e acrescenta: “Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devemos ser salvos” (vv. 11-12).

O Apóstolo interpreta depois sob a luz do mistério pascal de Cristo o Salmo 118, no qual o orador dá graças a Deus que responde ao seu grito de socorro e o resgata. Este Salmo diz: “A pedra que os construtores rejeitaram se tornou a pedra angular. Isto foi feito pelo Senhor: uma maravilha aos nossos olhos” (Sal 118,22-23).

Jesus viveu justamente esta experiência: de ser descartado pelos chefes de seu povo e reabilitado por Deus, colocado como fundamento de um novo tempo, de um novo povo que dará graças ao Senhor com tantos frutos de justiça (cfr Mt 21,42-43). Então, a primeira Leitura e o Salmo Responsorial, que é o próprio Salmo 118, remetem fortemente ao contexto pascal, e esta imagem da pedra rejeitada e restaurada leva nosso olhar sobre Jesus, que morreu e ressuscitou.

A segunda Leitura trata-se da Primeira Carta de João (3,1-2), ela nos fala, em vez, do fruto da Páscoa de Cristo: nós que nos tornamos filhos de Deus. Nas palavras de João se sente ainda toda a admiração por este dom: não somente somos chamados filhos de Deus, mas agora “somos realmente” (v. 1).

Em efeitos, a condição final de homem é fruto da obra santificadora de Jesus: com a encarnação, com sua morte e ressurreição e com o dom do Espírito Santo, Ele inseriu o homem dentro de uma relação nova com Deus, sua própria relação com o Pai. Por isso, Jesus ressuscitado diz: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). É uma relação já plenamente real, mas que não é ainda plenamente manifestada: assim será no fim, quando – se Deus quiser – poderemos ver Seu vulto sem véus (cfr v. 2).

Queridos Ordenados, é lá que nos quer conduzir o Bom Pastor! É lá que o sacerdote é chamado a conduzir os fiéis a ele confiados: para a vida verdadeira, a vida “em abundância” (Jo 10,10). Voltemos ao Evangelho, e à Parábola do pastor. “O bom pastor dá a própria vida pelas ovelhas” (Jo 10,11). Jesus insiste sobre esta característica essencial do verdadeiro pastor que é Ele próprio: aquela de “dar a própria vida”. Repete isso três vezes, e por fim conclui dizendo: “O Pai me ama, porque dou a minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de reassumi-la. Tal é a ordem que recebi de meu Pai” (Jo 10,17-18). Esta é claramente a característica que qualifica o pastor assim como Jesus a interpreta em primeira pessoa, segundo a vontade do Pai que o enviou. A figura bíblica do pastor, que compreende principalmente o dever de reger o povo de Deus, de mantê-lo unido e guiá-lo, toda essa função régia se realiza plenamente em Jesus Cristo na dimensão sacrificante, na oferta da vida.

Realiza-se, em uma palavra, o mistério da Cruz, isto é, no supremo ato de humildade e de amor sacrifical. O abate Teodoro de Studium diz: “Por meio da cruz, nós, ovelhas de Cristo, reunimo-nos num só rebanho e somos conduzidos para as moradas eternas” (Discurso sobre a adoração da cruz: PG 99, 699).

Nesta prospectiva, as formas de Rito de Ordenação dos Presbíteros são orientadas, como a que estamos celebrando. Por exemplo, entre as perguntas que estão relacionadas aos “empenhos dos eleitos”, a última, que tem um caráter culminante e no qual de modo sintético diz assim: “Vocês querem ser sempre mais estreitamente unidos a Cristo, Sumo Sacerdote, que como vítima pura se ofereceu ao Pai por nós, consagrando vocês mesmo a Deus, junto a Ele para a salvação de todos os homens?”

O sacerdote é, de fato, aquele que vem inserido de um modo singular no mistério de Sacrifício de Cristo, com uma união pessoal a Ele, para prolongar Sua missão santificadora. Esta união, que vem graças ao Sacramento da Ordenação, pede que se torne “sempre mais estreita” pela generosa correspondência do próprio sacerdote.

Por isso, queridos Ordenados, logo vocês responderão esse pergunta dizendo: “Sim, com a ajuda de Deus, eu quero”. Sucessivamente, nos Ritos explicativos, no momento de unção crismal, o celebrante diz: “O Senhor Jesus Cristo, que o Pai consagrou em Espírito Santo e poder, mantenha-o para a santificação de Seu povo e para a oferta do sacrifício”. E depois, na consagração do pão e do vinho: “Receba as ofertas do povo santo para o sacrifício eucarístico. Saibam que aquilo que fazem, imita aquilo que celebram, conforme sua vida no mistério da cruz de Cristo Senhor”.

Destaca-se fortemente que, para o sacerdote, celebrar cada dia a Santa Missa não significa desenvolver uma função ritual, mas compete uma missão que envolve inteiramente e profundamente a existência, em comunhão com Cristo ressuscitado que, em Sua Igreja, continua a atuar o Sacrifício redentor.

Esta dimensão eucarística-sacrificadora é inseparável daquela pastoral e também constitui o núcleo de verdade e de força salvadora, na qual depende a eficácia de cada atividade. Naturalmente, não falamos da eficácia somente sobre o plano psicológico ou social, mas da fecundidade vital da presença de Deus a nível humano profundo.

A própria pregação, as obras, os gestos de vários gêneros que a Igreja realiza com suas múltiplas iniciativas, perderiam sua fecundidade salvadora se não fosse celebrado o Sacrifício de Cristo. E isto é confiado aos sacerdotes ordenados. De fato, o presbítero é chamado a viver em si mesmo o que experimentou Jesus em primeira pessoa, isto é, dando-se plenamente à pregação e a cura do homem sobre todo mal do corpo e do espírito. E, depois, em fim, reassumir tudo no gesto supremo de “dar a vida” pelos homens, gesto que encontra sua expressão sacramental na Eucaristia, memorial perpétuo da Páscoa de Jesus.

É somente através desta “porta” de Sacrifício pascal que os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares podem entrar na vida eterna; é através desta “via santa” que podemos cumprir com êxodo o caminho para a “terra prometida” da verdadeira liberdade, aos “pastos verdejantes” da paz e da alegria sem fim
(cfr Jo 10,7.9; Sal 77,14.20-21; Sal 23,2).

Queridos Ordenados, que esta Palavra de Deus ilumine a vida de vocês. E quanto o peso da cruz se tornar pesado, saibam que esta é a hora mais preciosa, para vocês e para as pessoas a vocês confiadas: renovando com fé e com amor o vosso “sim, com a ajuda de Deus eu quero”, vocês cooperaram com Cristo, Sumo Sacerdote e Bom Pastor, no apascentamento de suas ovelhas – talvez a única coisa que lhes foi pedido, mas para o qual se faz grande festa no Céu! Que a Virgem Maria, Salus Populi Romani, vele sempre por cada um de vocês e por seus caminhos. Amém.

 


Última atualização em Seg, 30 de Abril de 2012 16:58
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Catequese de Bento XVI - Primazia da oração

CATEQUESE

Praça de São Pedro

Vaticano

Quarta-feira, 25 de abril de 2012

Queridos irmãos e irmãs

Na catequese passada, mostrei que a Igreja, desde o início do seu caminho, teve que enfrentar situações imprevistas, novas questões e emergências às quais procurou dar respostas à luz da fé, deixando-se guiar pelo Espírito Santo. Hoje gostaria de deter-me sobre uma outra situação, sobre um problema sério que a primeira comunidade cristã de Jerusalém teve que enfrentar e resolver, como nos narra São Lucas no capítulo sexto dos Atos dos Apóstolos, a respeito da pastoral da caridade junto às pessoas solitárias e necessitadas de assistência e ajuda. A questão não é secundária para a Igreja e corre-se o risco naquele momento, de criar divisões no interior da Igreja; o número dos discípulos, de fato, vinha aumentando, mas aqueles de lingua grega começavam a lamentar-se contra aqueles de língua hebraica porque as suas viúvas estavam sendo deixadas de lado na distribuição cotidiana (At. 6,1). Diante da urgência que se referia a um aspecto fundamental na vida da comunidade, isto é, a caridade em relação aos mais fracos, aos pobres, aos indefesos, e a justiça, os Apóstolos convocam todo o grupo de discípulos. Neste momento de emergência pastoral, sobressai o discernimento realizado pelos apóstolos. Eles se encontram diante da exigência primária de anunciar a Palavra de Deus segundo o mandato do Senhor, mas - também se esta é uma exigência primária da Igreja - consideram da mesma forma o dever da caridade e da justiça, isto é, o dever de assistir as viúvas, os pobres, de prover com amor diante das situações de necessidade nas quais se encontram irmãos e irmãs, para responder ao mandamento de Jesus: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,,12.17). Portanto, as duas realidades que devem ser vividas na Igreja -  o anúncio da Palavra, a primazia de Deus, e a caridade concreta, a justiça - , estão criando dificuldade e se deve encontrar uma solução, para que ambas possam estar em seus devidos lugares, e sua relação necessária. A reflexão dos Atos dos Apóstolos é muito clara, como ouvimos: "Não é justo que nós deixemos a Palavra de Deus à parte para servir as mesas. Entretanto, irmãos, procureis entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais confiaremos esta missão. Nós, ao invés disso, nos dedicaremos à oração e ao serviço da Palavra" (At 6,2-4).


Duas coisas aparecem: primeiro, existe a partir daquele momento, na Igreja, um ministério da caridade. A Igreja não deve somente anunciar a Palavra, mas também realizar a Palavra, que é caridade e verdade. E, segundo ponto, esses homens não somente devem gozar de boa reputação, mas devem ser homens repletos do Espírito Santo e de sabedoria, isto é, não podem ser somente organizadores que sabem "fazer", mas devem "fazer" no espírito da fé com a luz de Deus, na sabedoria do coração, e portanto, também a função deles - mesmo que seja prática -  é todavia uma função espiritual. A caridade e a justiça não são somente ações sociais, mas são ações espirituais realizadas na luz do Espírito Santo. Portanto, podemos dizer que essa situação vem enfrentada com grande responsabilidade por parte dos apóstolos, os quais tomam esta decisão: são escolhidos sete homens; os apóstolos rezam para pedir a força do Espírito Santo e depois, impõem as mãos para que se dediquem em modo particular a essa diaconia da caridade. Assim, na vida da Igreja, nos primeiros passos que ela realiza, se reflete, em um certo modo, o que havia acontecido durante a vida pública de Jesus, na casa de Marta e Maria em Betânia. Marta estava bem ligada ao serviço da hospitalidade oferecido a Jesus e aos seus discípulos; Maria, ao contrário, se dedica à escuta da Palavra do Senhor (Luc 10,38-42). Em ambos os casos, não são contrapostos os momentos da oração e da escuta de Deus, e a atividade cotidiana e o serviço da caridade. A expressão de Jesus: "Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas com tantas coisas, mas de uma coisa tens necessidade, Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada" (Luc 10,41-42), como também a reflexão dos apóstolos: "Nós nos dedicaremos à oração e ao serviço da Palavra" (At 6,4), mostram a prioridade que devemos dar a Deus. Não gostaria de entrar agora na interpretação desta perícope Marta-Maria. Em todo caso, não vem condenada a atividade pelo próximo, mas vem destacado que ela deve ser penetrada interiormente também pelo espírito de contemplação. Por outro lado, Santo Agostinho diz que essa realidade de Maria é uma visão da nossa situação no céu, portanto, na terra, não podemos nunca tê-la completamente, mas um pouco de antecipação deve estar presente em toda a nossa atividade. Deve estar presente também a contemplação de Deus. Não devemos nos perder no ativismo puro, mas sempre deixarmo-nos penetrar na nossa atividade à luz da Palavra de Deus e assim aprender a verdadeira caridade, o verdadeiro serviço pelo outro, que não tem necessidade de tantas coisas - tem necessidade certamente das coisas necessárias - mas tem necessidade sobretudo do afeto do nosso coração, da luz de Deus.

Santo Ambrósio, comentando o episódio de Marta e Maria, assim exorta os seus fiéis e também nós: "Procuremos ter também nós aquilo que não nos pode ser tirado, dando à palavra de Deus uma grande atenção, não distraída: acontece também às sementes da palavra de serem levadas embora,  semeadas ao longo da estrada. Estimule também tu, como Maria, o desejo do saber: é esta a maior, mais perfeita obra" - E acrescenta ainda: "o cuidado do ministério não desvie o conhecimento da palavra celeste" (Expositio Evangelii secundum Lucam, VII, 85: pl 15, 1720). Os santos, portanto, experimentaram uma profunda unidade de vida de oração e ação, entre o amor total a Deus e o amor aos irmãos. São Bernardo, que é modelo de harmonia entre contemplação e operosidade, no livro De Consideratione, endereçado ao Papa Inocêncio II para oferecer-lhe algumas reflexões a respeito de seu ministério, insiste exatamente sobre a importância do recolhimento interior, da oração para defender-se dos perigos de uma atividade excessiva, qualquer que seja a condição na qual se encontra a tarefa que se está desenvolvendo. São Bernardo afirma que a demasiada ocupação, uma vida frenética, geralmente acabam induzindo o coração a fazer sofrer o espírito.

É uma preciosa retomada para nós hoje, acostumados a valorizar tudo a partir do critério da produtividade e da eficiência. O trecho dos Atos dos Apóstolos nos recorda a importância do trabalho - sem dúvida se é criado um verdadeiro ministério - , do empenho nas atividades cotidianas que são desenvolvidas com responsabilidade e dedicação, mas também a nossa necessidade de Deus, da sua direção, da sua luz que nos dão força e esperança.Sem a oração cotidiana vivida com fidelidade, o nosso fazer se esvazia, perde o sentido profundo, se reduz a um simples ativismo que, no final, nos deixa insatisfeitos. Existe uma bela invocação da tradição cristã para recitar-se antes de toda atividade, a qual diz assim: Actiones nostras, quæsumus, Domine, aspirando præveni et adiuvando prosequere, ut cuncta nostra oratio et operatio a te semper incipiat, et per te coepta finiatur", isto é: "Inspire as nossas ações Senhor, e acompanhe-as com a tua ajuda, para que todo o nosso falar e agir tenha de ti o seu início e o seu cumprimento". Cada passo da nossa vida, toda ação, também na Igreja, deve ser feita diante de Deus, à luz da sua Palavra.

Na catequese da quarta-feira passada eu havia destacado a oração unânime da primeira comunidade cristã diante das provas e como, exatamente na oração, na meditação sobre a Sagrada Escritura ela pode compreender os eventos que estavam acontecendo. Quando a oração é alimentada pela palavra de Deus, podemos ver a realidade com olhos novos, com os olhos da fé e o Senhor, que fala à mente e ao coração, dá nova luz ao caminho em todos os momentos e em todas as situações. Nós cremos na força da Palavra de Deus e da oração. Também a dificuldade que está vivendo a Igreja diante do problema do serviço aos pobres e a questão da caridade, é superada na oração, à luz de Deus, do Espírito Santo. Os apóstolos não se limitam a ratificar a escolha de Estevão e dos outros homens, mas depois de rezar , impõem-lhes as mãos" (At 6,6). O Evangelista recordará novamente estes gestos em ocasião da eleição de Paulo e Barnabé, onde lemos: "depois de ter jejuado e rezado, impuseram-lhes as mãos e os despediram" (At 13,3). Confirma-se de novo que o serviço prático da caridade é um serviço espiritual. Ambas as realidade devem andar juntas.

Com o gesto da imposição das mãos, os Apóstolos conferem um ministério particular a sete homens, para que seja dada a eles a força correspondente. O destaque dado à oração - depois de ter rezado", dizem -  é importante porque evidencia exatamente a dimensão espiritual do gesto; não se trata simplesmente de conferir um encargo como acontece em uma organização social, mas é um evento eclesial no qual o Espirito Santo se apropria de sete homens da Igreja, consagrando-os na Verdade que é Jesus Cristo: é Ele o protagonista silencioso, presente na imposição das mãos para que os eleitos sejam transformados pela sua potência e santificados para enfrentar desafios práticos, os desafios pastorais. E o destaque da oração nos recorda além disso que somente no relacionamento íntimo com Deus cultivado a cada dia nasce a resposta à escolha do Senhor que nos vem confiado cada ministério na Igreja.

Queridos irmãos e irmãs, o problema pastoral que levou os apóstolos a escolher e a impor as mãos sobre sete homens encarregados do serviço da caridade, para dedicarem-se à oração e ao anuncio da Palavra, indica também a nós a primazia da oração e da Palavra de Deus, que, todavia, produz depois também a grande ação pastoral. Para os Pastores, esta é a primeira e mais preciosa forma de serviço em relação ao rebanho a eles confiado. Se os pulmões da oração e da Palavra de Deus não alimentam a respiração da nossa vida espiritual, sofremos o risco de nos sufocarmos em meio às mil coisas de todos os dias: a oração é a respiração da alma e da vida. E existe uma outra preciosa retomada que gostaria de destacar: no relacionamento com Deus, na escuta de sua Palavra, no diálogo com Deus, também quando nos encontramos no silêncio de uma igreja ou de nosso quarto, estamos unidos no Senhor a tantos irmãos e irmãs na fé, como uma junção de instrumentos, que apesar da individualidade de cada um, elevam a Deus uma única grande sinfonia de intercessão, de agradecimento e de louvor. Obrigado.

Última atualização em Qui, 26 de Abril de 2012 00:03
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Mensagem Bento XVI à Pontifícia Comissão Bíblica

 

Mensagem
Aos Membros da Pontifícia Comissão Bíblica
Vaticano
Sexta-feira, 20 de abril de 2012

Ao Venerado Irmão
Cardeal William Levada
Presidente da Pontifícia Comissão Bíblica.


É um prazer enviar-lhe, venerado irmão, ao cardeal Prosper Grech, O.S.A, ao Secretário e a todos os membros da Pontifícia Comissão Bíblica, a minha cordial saudação em ocasião da Assembléia Plenária anual que aconteceu para tratar sobre o importante tema "Inspiração e Verdade da Bíblia".

Como sabemos, tal temática é fundamental para uma correta hermenêutica da mensagem bíblica. Exatamente a inspiração como ação de Deus faz sim que, nas palavras humanas se exprima a Palavra de Deus. De consequência, o tema da inspiração é decisivo para a adequada aproximação das Sagradas Escrituras. De fato, uma interpretação dos sagrados  textos que desconsidera ou esquece sua inspiração não leva em consideração a sua mais importante e preciosa característica, ou seja, a proveniência de Deus. Na minha exortação apostólica pós sinodal Verbum Domini, recordei, além disso, que os Padres Sinodais colocaram em evidência o tema da inspiração, esteja conectado também ao tema da verdade das escrituras. Por isto, uma aprofundamento da dinâmica da inspiração levará sem dúvida também a uma maior compreensão da verdade contida nos livros sacros.

Para o carisma da inspiração, os livros da Sagrada Escritura têm uma força de apelo direto e concreto. Mas a Palavra de Deus não está presa na escrita. Se, de dato, o ato da Revelação se concluiu com a morte do último apóstolo, a Palavra revelada continuou a ser anunciada pela viva Tradição da Igreja. Por esta razão a Palavra de Deus fixada nos textos sacros é um depósito inerente no interior da Igreja, mas se torna regra suprema de sua fé e potência de vida. A tradição que provém dos apóstolos progride com a assistência do Espírito Santo e cresce com a reflexão e o estudo dos crentes, com a experiência pessoal de vida espiritual e a pregação dos bispos (cfr. Dei Verbum).

Ao estudar o tema da "Inspiração e Verdade da Bíblia",a Pontifícia Comissão Bíblica é chamada a oferecer o sua específica e qualificada contribuição a este necessário aprofundamento. É, de fato, essencial e fundamental para a vida e para a missão da Igreja, que os textos sacros sejam interpretados segundo sua natureza: a Inspiração e a Verdade são características constitutivas desta natureza. Por isso, o vosso empenho terá uma verdadeira utilidade para a vida e para a missão da Igreja.

Com o desejo a cada um de vocês de um frutuoso prosseguimento dos vossos trabalhos, gostaria, enfim, de exprimir o meu vivo apreço pela atividade desenvolvida pela Comissão Bíblica, empenhada a promover a consciência, o estudo, a acolhida da Palavra de Deus no mundo. Com tais sentimentos, confio cada um de vós à materna proteção da Virgem Maria, que com toda a Igreja invocamos como Sedes Sapientiae, e de coração dirijo-lhe, venerado irmão, e a todos os membros da Pontifícia Comissão Bíblica uma especial benção Apostólica.

Do Vaticano, 18 de abril de 2012.

 

Última atualização em Sáb, 21 de Abril de 2012 11:14

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